Charles Chaplin











{Fevereiro 12, 2008}   Fonte site: www.vivacarlistos.com

9 de dezembro de 1997

Sátira de Chaplin não perde a atualidade

O Grande DitadorPode ser mentira, mas conta a lenda que Adolf Hitler gostava de assistir secretamente a O Grande Ditador. O führer divertia-se com a caricatura que Charles Chaplin fez de um ditador muito parecido com ele. Aliás, é impressionante como essas duas figuras opostas conseguiam ser tão parecidas, fisicamente. Hitler, o homem que levou o mundo à 2ª Guerra e foi o artífice do holocausto, responsável pela morte de 6 milhões de judeus, e Chaplin, o criador de Carlitos, um dos personagens mais ternos e gentis da história do cinema.

O Grande Ditador está saindo em vídeo pela Continental, empresa que tem em seu acervo verdadeiros clássicos da cinematografia universal. Em dezembro, a Continental promete colocar nas locadoras A Carroça Fantasma, do sueco Victor Sjostrom. À espera de A Carroça Fantasma, o público pode (re)ver antes O Grande Ditador. É uma das grandes sátiras políticas, talvez a maior, do cinema.

Na sua autobiografia, publicada em 1964, Chaplin afirma que se soubesse dos horrores que se perpetravam nos campos de concentração do nazismo não teria feito o filme – não conseguiria fazer graça à custa da demência homicida de uma ideologia tão voltada contra o ser humano. Chaplin começou a escrever o roteiro no princípio de 1939, com base numa idéia que lhe fora sugerida pelo produtor e diretor inglês Alexander Korda. Com base na semelhança física entre Chaplin e Hitler, Korda sugeriu ao grande artista que fizesse uma sátira de Hitler que girasse em torno de uma troca de identidade.

Chaplin sofreu muitas pressões e ameaças durante a rodagem. Grupos pró-nazistas ameaçavam jogar bombas nos cinemas onde o filme fosse exibido. Mas o autor não se deixou intimidar e concluiu a montagem no momento em que as tropas hitleristas invadiam a França. Chegou a dizer que projetaria o filme nem que tivesse de comprar um cinema e fosse o único espectador na sala. Lançado em Nova York, em outubro de 1940, O Grande Ditador não recebeu comentários muito entusiasmados e ainda irritou os isolacionistas, que queriam manter a neutralidade dos Estados Unidos na guerra que já se travava na Europa.

A polêmica social que Chaplin iniciou com Tempos Modernos se torna aqui política. Na história, Chaplin interpreta dois papéis: faz um barbeiro judeu e o ditador Hynkel. O barbeiro enamora-se de uma jovem, Hannah (Paulette Goddard), e tem de fugir das perseguições anti-semitas. O acaso faz com que ele, sósia do ditador, assuma o lugar desse último. Toda a ação cômica converge para o célebre discurso final, quando o barbeiro, travestido de ditador, faz um apelo ao pacifismo e ao humanismo. Chaplin, que havia resistido o quanto pôde ao advento do cinema sonoro, usa nessa cena a palavra para completar a expressão do homem.

Obra-prima – É emocionante. Num trecho dessa obra-prima do discurso universal, Chaplin diz: “O ódio dos homens passará, os ditadores morrerão e o poder que eles usurparam voltará ao povo. E, enquanto houver homens que saibam lutar por ela, a liberdade não morrerá.” A sátira é particularmente aguda e violenta contra Hitler, perseguidor dos judeus, mas a intenção é mais ampla: a defesa dos direitos humanos, do homem comum e humilde, que sempre foi Carlitos. É o primeiro filme em que Chaplin fala (após as frases sem sentido da música de Tempos Modernos) e o último em que aparece Carlitos – um Carlitos em processo de mudança. O barbeiro tem uma dimensão carlitiana, mas desapareceram as características externas do imortal vagabundo – as calças largas, os enormes sapatos e o andar típico.

No filme seguinte, Carlitos desaparece de vez e Chaplin metamorfoseia-se em M. Verdoux, o criminoso que está para ser executado enquanto a sociedade celebra a chacina da guerra sob o nome de heroísmo. Chaplin terá problemas, mais tarde, com o macarthismo por causa desses filmes. Tudo isso faz parte da história. Há momentos de O Grande Ditador que você vai ver com o botão de rewind na mão, para poder voltar atrás e rever a cena. O balé do ditador com o globo terrestre, tão marcante que foi usado como abertura da novela O Dono do Mundo, e a barba feita no cliente ao som da Dança Húngara, de Brahms. Dificilmente serão esquecidos – são momentos sublimes de uma das obras que o tempo consagrou entre as maiores de Chaplin.

Luiz Carlos Mertem 

 



etc.